Neste artigo
Pegue uma folha de papel e amasse. O que sobra na sua mão é uma bolinha cheia de dobras e vincos. Guarde essa imagem, porque ela ajuda a responder uma das perguntas mais antigas sobre o cérebro humano.
As rugas do cérebro
A camada mais externa do cérebro se chama córtex. É uma lâmina fina de tecido, com poucos milímetros de espessura, onde acontecem funções como memória, linguagem e planejamento.
Esse tecido é formado por dois tipos de célula: os neurônios, que processam e transmitem informação, e as células gliais, que dão suporte a eles. Quando se fala em contar quantos neurônios um cérebro tem, são apenas as primeiras que entram na conta.
No ser humano, essa lâmina é enrugada. As saliências se chamam giros e as fendas entre elas, sulcos. Nem todo mamífero é assim: o cérebro do rato, por exemplo, é praticamente liso.
Durante muito tempo, essas rugas foram lidas como um sinal de inteligência. O raciocínio parecia sólido: dobrar permite espremer mais córtex dentro do crânio, e mais córtex significaria mais neurônios. Logo, mais rugas, mais neurônios, mais capacidade de pensar.
O elefante desmonta a explicação
O problema apareceu quando os cérebros passaram a ser comparados espécie por espécie.
O córtex do elefante é cerca de duas vezes maior que o nosso e mais enrugado. Pelo raciocínio acima, ele deveria abrigar mais neurônios que o humano. Mas abriga menos: são 5,6 bilhões de neurônios corticais no elefante, contra cerca de 16 bilhões em nós.
Ou seja, a espécie com mais dobras não é a espécie com mais neurônios. Havia algo errado na explicação.
O que as dobras realmente medem
Em julho de 2015, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel e o físico Bruno Mota, então na Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicaram uma resposta na revista Science.
Eles compararam dezenas de espécies de mamíferos e mostraram que o quanto um córtex se dobra pode ser previsto por apenas dois números: a área da lâmina e a espessura dela. O número de neurônios não entra nessa conta.
Volte para o papel. Amasse uma folha grande e fina, de papel de seda, e ela forma muitas dobras. Amasse um pedaço pequeno de papelão e ele quase não dobra. Lâminas grandes e finas se dobram muito. Lâminas pequenas e grossas se dobram pouco.
O córtex se comporta do mesmo jeito. As dobras não são um projeto da evolução para aumentar a inteligência. São o resultado previsível de uma lâmina de determinado tamanho e determinada espessura crescendo dentro de um espaço limitado.
"Ou seja, é algo que não depende de modificação genética. É física pura", resumiu Herculano-Houzel à época.
Por que dobra não é o mesmo que neurônio
Aqui está o ponto que costuma escapar. Existem duas perguntas diferentes envolvidas, e cada uma tem a sua própria resposta.
A primeira: quanto córtex cabe dentro do crânio? Quem responde é o dobramento. Uma lâmina maior precisa se dobrar mais para caber no mesmo espaço.
A segunda: quantos neurônios cabem em cada pedaço dessa lâmina? Quem responde é o tamanho dos neurônios daquela espécie. E isso varia bastante entre os grupos de mamíferos. Nos primatas, os neurônios continuam pequenos mesmo quando o cérebro aumenta, então cabem muitos deles em pouco espaço. Em outros grupos, como o dos elefantes, os neurônios vão ficando maiores conforme o cérebro cresce, e por isso cabem menos.
É por isso que o elefante tem uma lâmina de córtex maior e mais dobrada que a nossa e, ainda assim, menos neurônios nela: os neurônios estão distribuídos de forma mais esparsa ao longo do tecido.
As dobras informam qual é a extensão da lâmina de córtex. Não informam quantos neurônios estão distribuídos nela. São medidas de coisas diferentes, e foi justamente essa confusão que durou décadas.
Forma não é função
Vale registrar que o modelo não foi aceito sem discussão. Em 2016, a própria Science publicou críticas ao ajuste dos dados, respondidas pelos autores na mesma edição. Isso não é sinal de fragilidade: é assim que a ciência funciona, por proposta, crítica e réplica.
Mas a lição principal vale para muito além do caso das dobras. Uma característica visível e impressionante do cérebro foi tratada durante décadas como explicação de algo que ela não explicava.
Esse é o mecanismo por trás de boa parte dos neuromitos que circulam em escolas e em cursos de formação: uma imagem convincente, um salto de raciocínio e uma conclusão que os dados não sustentam. O cérebro esquerdo e o cérebro direito, a ideia de que usamos só 10% do cérebro e os estilos de aprendizagem nasceram todos desse mesmo tipo de atalho.
O que parece distinguir a nossa cognição não é o desenho da superfície do córtex. É o número de neurônios que ele abriga.
Referências
Herculano-Houzel, S., Avelino-de-Souza, K., Neves, K., Porfírio, J., Messeder, D., Mattos Feijó, L., Maldonado, J., & Manger, P. R. (2014). The elephant brain in numbers. Frontiers in Neuroanatomy, 8, 46.
Herculano-Houzel, S., Collins, C. E., Wong, P., & Kaas, J. H. (2007). Cellular scaling rules for primate brains. Proceedings of the National Academy of Sciences, 104(9), 3562-3567.
Mota, B., & Herculano-Houzel, S. (2015). Cortical folding scales universally with surface area and thickness, not number of neurons. Science, 349(6243), 74-77.






