Blog

Carta a um(a) jovem pesquisador(a) no mundo das redes sociais

Carta a um(a) jovem pesquisador(a) no mundo das redes sociais

Oi, boa tarde, eu sou estudante de psicologia, você poderia responder um questionário para a minha pesquisa? É só cinco minutinhos…” Pronto, isso já foi suficiente para seu possível participante de pesquisa pensar em alguma desculpa: “desculpa, estou atrasado”, “hoje não vai dar, desculpe” ou até mesmo trocar de calçada se tiver visto você a uma certa distância. Se for um questionário online, provavelmente ele deixará para ler seu e-mail daqui uns dias ou meses, quando ele tiver mais tempo.

Muitos de vocês sabem bem do que eu estou falando, não é mesmo? Quando chega o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), iniciação científica ou disciplinas aplicadas que têm trabalho prático envolvido, sempre que nos deparamos com a parte de método, a seguinte decisão é quase automática: vou aplicar um questionário! Claro, posso pedir pro meu pai aplicar lá na empresa dele, disparo os links do questionário online nos meus grupos de e-mail e no facebook, peço para meus amigos mais próximos compartilharem e (para os mais animados) posso ir na rodoviária pedir para algumas pessoas na fila do ônibus.

Mas por quê é tão difícil conseguir pessoas dispostas a responder meu questionário? Será que elas não se preocupam com o desenvolvimento da ciência? A resposta é simples: responder questionário é chato e o seu participante provavelmente não identificará, a curto prazo, que está contribuindo para um objetivo tão grande como o de construção da ciência. O comportamento dele (e de todos nós) é muito mais influenciado por eventos e consequências mais próximas temporalmente do que aquelas a longo prazo e que não tem resultado garantido, por exemplo contribuir para o desenvolvimento da ciência, preservar o meio ambiente, participar de voluntariados, etc.

Todos esses valores são muito importantes, mas para que eles sejam alcançados é necessário estabelecer pequenos passos de uma “rota” facilitadora para que as pessoas de fato contribuam. Aqui vão algumas dicas para quem quer se aventurar no mundo científico:

Seja criativo:  muitas vezes nos perdemos no rigor acadêmico e não nos permitimos colocar um pouco de nós ao elaborar o delineamento da pesquisa. Esse é o momento que mais te permite ser inovador!

Misture as áreas do conhecimento: desde que entramos na faculdade já começamos a estudar fenômenos sociais de forma fragmentada em disciplinas, se esforce para utilizar várias lentes de conhecimento ao mesmo tempo. Vocês já devem ter percebido como é difícil explicar um comportamento complexo em sua totalidade, e quase sempre será necessário focar em apenas uma parte dele para analisar.

Misture métodos: já ouviu falar em método misto? Essa é uma excelente ferramenta para investigar fenômeno sociais. Uma boa leitura é o livro “Pesquisa de Métodos Mistos – Série Métodos de Pesquisa – 2ª Ed. 2013” dos autores John W. Creswell e Vicki L. Plano Clark.

Não morra nas escalas! Existe uma variedade de métodos que podem ser utilizados na sua pesquisa e que irá torna-la muito mais rica. As escalas podem ser muito enfadonhas para seus participantes, podem não fornecer respostas tão fidedignas e seu estudo pode não se destacar tanto como poderia, ainda que seja uma pergunta de pesquisa sensacional.

Você já deve ter ouvido essa: pra quem só tem martelo na mão, tudo que vê pela frente é prego. Se você só sabe aplicar escalas, ou se não sai da sua zona de conforto em disparar questionários online em redes sociais e listas de e-mail, muito provavelmente não vai descobrir a beleza de uma pesquisa observacional, de um estudo etnográfico, de realizar grupos focais ou diários.

Converse sobre sua pesquisa com outras pessoas fora da sua área elas provavelmente vão te dar muitas ideias que você não tinha parado para pensar antes.

Respeite seus participantes de pesquisa, sejam éticos e os tratem muito bem. Em uma cultura, com rígidas normas e, às vezes descabidas, em relação à prática científica nas ciências sociais, encontrar voluntariados pode ser um grande desafio e é muito importante que essas pessoas tenham boas experiências em participar de pesquisa. Forneçam feedback e devolvam os seus resultados de pesquisa com uma linguagem acessível para a comunidade.

Tudo isso dá trabalho, não é fácil mesmo ser pesquisador. Por isso é fundamental que você seja movido a um tipo de combustível: curiosidade! É isso que vai te manter horas em frente ao computador analisando dados e escrevendo. É a curiosidade que vai fazer que você não aceite apenas as respostas de um questionário como única solução para a sua pergunta de pesquisa. Você vai querer sempre mais respostas e mais detalhes.

Quais tem sido seus principais desafios de pesquisa? O artigo te deu alguma nova ideia? Conte pra gente!

Compartilhe

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Descubra mais

Veja outras postagens relacionadas

Como quase tudo em Psicologia, a resposta será: depende. Do ponto de vista da Psicologia enquanto ciência e profissão, é preciso primeiro lembrar que existem os diagnósticos médicos ou psiquiátricos,

Quando uma pessoa decide cursar uma faculdade de Psicologia, geralmente existem algumas motivações comuns. Ao dar as boas-vindas aos alunos de primeiro semestre e questioná-los sobre o que os levou

Se você está lendo esse texto, com certeza você consegue ler palavras. Mas você sabia que existem 4 modos de ler palavras e que nós aprendemos essas diferentes maneiras desde

0
Would love your thoughts, please comment.x