Pandemia e seus desdobramentos emocionais: até hoje?


Estudos conduzidos por todo o planeta ainda tentam compreender os impactos emocionais da pandemia de Covid-19 nos indivíduos. No primeiro ano, em 2021, tornaram-se populares algumas conceituações que tentaram explicar esses impactos. Dentre elas, falou-se em “languishing”, “corona blues” e “fadiga pandêmica”.  

O primeiro, languishing, é um termo cunhado pelo sociólogo e psicólogo da psicologia positiva Corey Keyes (2002), mas que foi retomado e transportado para o contexto da pandemia a partir de uma reportagem publicada no jornal “The New York Times”, em abril de 2021. Traduzido geralmente como definhamento, abatimento e lassidão, languishing foi descrito como uma condição crônica (e não um transtorno mental) que afetou aos indivíduos após o choque emocional do medo intenso vivido no início da pandemia, a qual não é falta de energia ou desesperança, mas algo sem muita alegria e sem objetivo que altera a motivação e o foco das pessoas. Relaciona-se com um senso de estagnação e de vazio, com uma falta de propósito ou uma espécie de indiferença que não é percebida e nem nomeada, que não é somente subjetiva, mas que é comum e compartilhada, e está relacionada às circunstâncias. Segundo Grant (2021), aqueles que sentiram isso em 2021 estariam mais propensos a sentir ansiedade e depressão ao longo do tempo. Para as pessoas que se identificaram com o languishing nos meses anteriores, pode-se perguntar: como estão hoje? Este prognóstico corresponde à realidade? 

Corona Blues é um outro termo popular, de origem coreana, que apresenta descrição parecida com a de languishing. Contudo, corona blues é explicado como uma sensação generalizada de perda que mantém a capacidade de identificar e nomear as tristezas, as faltas, os desejos frustrados e as desconexões da vida.  Ele se refere a uma melancolia ou a uma depressão leve relacionada ao isolamento e à pandemia, sendo também situacional (Oyira et al., 2020; Bae & Chang, 2021; Oh & Woong, 2020).

A fadiga pandêmica, por sua vez, foi um termo da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020) utilizado para englobar as descrições acima e correlacionar os diversos desconfortos emocionais. Parte-se do entendimento de que a hiper vigilância ao vírus e os excessos de privações têm o efeito de sobrecarregar o sistema de adaptação humano e, com isso, os indivíduos vivenciam uma espécie de exaustão. Cansaço, falta de foco, sensação generalizada de perdas e melancolia são descrições da fadiga pandêmica, “aqui definida como angústia que pode resultar em desmotivação para seguir comportamentos de proteção recomendados, emergindo gradualmente ao longo do tempo e afetado por uma série de emoções, experiências e percepções” (WHO, 2020, p. 4).

Estamos perto de completar três anos do início da pandemia e, enquanto coletividade, não nos enquadramos mais naquele estado de hiper vigilância ao vírus. Mas como estamos hoje, em termos emocionais? De que forma os impactos da pandemia ainda nos atingem psicologicamente? Quais dos sintomas e estados ainda nos tocam e nos movem? Quais as perdas que reconhecemos e como estão nossos lutos em relação a elas? Identificamo-nos ainda com o estado anestesiado de languishing? Ou com o despertar melancólico do corona blues? Ou com a descrição generalizada de todos os desconfortos da alma expressos na ideia de fadiga pandêmica?

Analisar os desdobramentos afetivos por meio da nomeação de estados psicológicos possibilita o reajuste das expectativas, dos planos, da produtividade, além do acolhimento das angústias e de outras emoções que se apresentam. A experiência da pandemia possibilitou a vivência subjetiva de situações novas e, com isso, gerou abertura para novos espaços da vida. Como reagimos a isso tudo? O quanto e em quais aspectos nos abrimos e nos fechamos? Observamos transformações em nossos comportamentos e nas relações com as outras pessoas? Houve espaço para a criatividade psicológica? 

As pesquisas em Psicologia ainda têm um significativo trabalho a realizar ao se aproximar deste tema. São muitas as variáveis que o atravessam, sendo uma delas, de grande impacto, os diversos posicionamentos políticos durante ou diante da pandemia, por exemplo. Trata-se de um fenômeno complexo a ser compreendido em estudos longitudinais e com grande relevância científica e social. Quais e como são as marcas coletivas e individuais emocionais que conseguimos reconhecer hoje e que conseguiremos identificar posteriormente desta pandemia?

Referências

Bae, S. Y & Chang, P. (2021). The effect of coronavirus disease-19 (COVID-19) risk perception on behavioural intention towards ‘untact’ tourism in South Korea during the first wave of the pandemic (March 2020), Current Issues in Tourism, 24:7, 1017-1035.  https://doi.org/10.1080/13683500.2020.1798895

Grant, A. (2021). Feeling Blah During the pandemic? It´s called Languishing. The New York Times. New York, NY. 19 abr. 2021. Feeling Blah During the Pandemic? It’s Called Languishing – The New York Times (nytimes.com)

Keyes, C. L. M. (2002). The mental health continuum: from languishing to flourishing in life. Journal of health and behavior: issues of measurement and dimensionality, v. 43, n. 2, p. 207-222. 

Oh, H. S. & Woong, S. (2020). Strict Containment Strategy and Rigid Social Distancing Successfully Contained COVID-19 in the Military in South Korea. Military Medicine, v. 185, p. 476–479. https://doi.org/10.1093/milmed/usaa211

Oyira, E. J; Osuchukwu, E. C.; Opiah, M. M., et al. (2020). Anxiety and perception among nurses towards the outbreak of COVID-19 in University of Uyo Teaching Hospital, Akwa Ibom State[OL]. NursRxiv. http://www.zxyjhhl.net.cn/EN/10.4103/jin.jin_43_20

WHO. (2020). Pandemic fatigue – reinvigorating the public to prevent COVID-19: Policy framework for supporting pandemic prevention and management. Regional Office for Europe,  Copenhagen. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO. WHO-EURO-2020-1573-41324-56242-eng.pdf

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