Diagnóstico em Psicologia: libertador ou aprisionante?


Como quase tudo em Psicologia, a resposta será: depende. Do ponto de vista da Psicologia enquanto ciência e profissão, é preciso primeiro lembrar que existem os diagnósticos médicos ou psiquiátricos, que são aqueles encontrados nos manuais de classificação das doenças, como o CID e o DSM, e que existem os diagnósticos próprios à Psicologia, como a neurose nos termos psicanalíticos, por exemplo. Isso sem deixar de lado o fato de que as abordagens psicológicas se relacionarão de formas muito diversas com os diagnósticos e, que cada uma delas possui terminologias próprias para descrever as suas conceituações. 

As diferentes bases epistemológicas, a relação entre conhecimento e verdade, além da visão de sujeito e de mundo das quais partem o olhar psicológico sobre o diagnóstico definirão para qual lado – aprisionante ou libertador – os diagnósticos tenderão. 

Abordagens em Psicologia que privilegiam compreensões mais causalistas tendem a dar um grande valor aos diagnósticos mais fechados, com base na ideia de que o entendimento dos padrões possibilita uma maior compreensão das causas e dos prognósticos e, consequentemente, de estratégias de intervenção para suprimir sintomas ou possibilitar reabilitações. Em outras palavras, ao definir um diagnóstico, nesta visão mais causalista, é possível ter uma noção de como um transtorno mental específico se manifesta, de como se mantém e de como pode ser tratado. 

No entanto, como nada é simples ao se falar em saúde mental, existem outras perspectivas que apontam para problemas e limitações deste tipo de olhar.  Se tomarmos como exemplo os manuais de classificações de doenças como o CID e o DSM, observa-se que estes pressupõem padrões normais e padrões desviantes de comportamentos e de sintomas com base em dados estatísticos levantados em populações específicas. Três apontamentos comuns feitos ao uso não crítico desses manuais são: 

  1. O comportamento humano está sujeito a variáveis identificáveis e, não identificáveis também, sempre complexas e impossíveis de serem isoladas para se determinar com exatidão qualquer dado. Parte da subjetividade escapa aos limites daquilo que cabe na ciência “hard”, não sendo incluída nas variáveis dos modelos causalistas de produção de ciência. As psicologias que trabalham com a ideia de inconsciente entendem que há sempre dimensões do psiquismo humano incapturáveis à racionalidade. 
  2. A definição de um padrão de normalidade geralmente perpetua a exclusão e a percepção de não pertencimento daqueles que são diferentes àquilo que foi definido como norma. Em maiores proporções, é geradora de preconceitos e segregação de grupos. Ou seja, o uso dos diagnósticos médicos sem a consideração das diferenças socioculturais e das relações de poder existentes pode ser excludente, sem sentido e produtor de mais sofrimento. 
  3. Quem faz a ciência e suas conceituações sobre saúde e doença? Quem define e detém o poder sobre o conhecimento nesta área? Quem determina o que é padrão aceito em cada época e lugar? Homens? Brancos? Indústria farmacêutica? Como estes mantêm (ou não) a neutralidade científica necessária para a definição de critérios que não prejudiquem determinados grupos ou que não os mantenham dentro de maiores privilégios do que outros? Nesse aspecto, poderíamos adentrar nas polêmicas e difusas discussões sobre teorias e métodos em Psicologia – o que não pretende este texto – e nas atuais discussões sobre os discursos colonizadores em ciência. Relembro o clássico “História da loucura”, de Michel Foucault, para aprofundar a temática. 

Em todos esses casos, o diagnóstico classificatório pode fechar e reduzir o fenômeno em saúde mental. Do ponto de vista dos indivíduos, pode-se pensar que estes deixam de ser contemplados em suas singularidades e em suas relações criativas com a vida psicológica. Alguns traços de personalidade que poderiam ser considerados como aspectos de autenticidade acabam comprimidos em categorias desviantes e problemáticas, tornando-se de fato fonte de sofrimento para os sujeitos e para a sociedade. 

Por outro lado, voltando à Psicologia enquanto produtora de conhecimento, os diagnósticos quando tomados como perspectivas (situadas em um espaço e tempo específicos, encerradas em discursos específicos e coexistentes com diversas outras) também têm o potencial de amplificar e aprofundar a percepção sobre o fenômeno psicológico – e não somente reduzir. Mas isto apenas ao serem considerados em sua relatividade, pois aí fornecem possibilidades mais complexas de compreensão da vida humana e possibilidades mais diversas de escuta e prática psicológica. As perspectivas – dentre elas os diagnósticos – organizam o conhecimento, possibilitam uma linguagem comum (na ciência e na sociedade em geral) e, quando compreendidas como pluralidades, insisto, podem ser geradoras de sentidos às manifestações da psique. Esta forma de consideração dos diagnósticos pode, inclusive, promover ações direcionadas a práticas antidiscriminatórias, inclusivas e de maior consciência social.

Se os diagnósticos tenderão a ser mais libertadores ou mais aprisionantes, dependerá da capacidade da Psicologia, dos indivíduos e até mesmo da sociedade de sustentar a tensão que existe no gesto de capturar uma imagem adequada dos fenômenos psicológicos sem fechá-la demais a ponto de não haver espaço para transformação e para novos sentidos e, ao mesmo tempo, sem perdê-la em relativismos infindáveis presente em uma abertura absoluta. 

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