O lobo preguiçoso na pele de cordeiro da salvação: chega de brincar de ensinar por adivinhação!

Escrevo esse manifesto a todos aqueles que se interessem tanto pela Psicologia quanto pela Educação Brasileira. Aos meus amigos pedagogos, psicólogos, alunos desses cursos e de áreas relacionadas, acho que está mais do que na hora de tomarmos atitudes mais consistentes e críticas.

O motivo desse manifesto se deve principalmente a revista que recebi ontem em minha casa. Sou assinante da revista Nova Escola, e ontem recebi a edição do mês cuja capa fala exatamente sobre alfabetização. Esse tema que é recorrente em meu cotidiano há alguns anos, como área de estudos, era capa da revista que chegou na hora em que eu acabava de corrigir meu projeto de mestrado sobre o mesmo tema.

Ao folhear algumas páginas minha decepção já se tornara evidente, páginas e mais páginas de idolatria a teorias mal compreendidas e utilizadas. Na hora, fiquei extremamente nervoso, incrédulo, de certo modo, por observar que um país como o Brasil que tem um dos sistemas de pós-graduação mais bem desenvolvidos da América Latina, possa disseminar discursos sem evidências científicas que objetivam nortear a prática de professores.

Estou falando das discussões sobre a Psicogênese da Língua Escrita, uma teoria publicada nos anos 1980, isso mesmo, uma teoria de 30 anos que é cultuada no Brasil como sendo a solução de todos os problemas. Essa teoria sob a bandeira de teoria construtivista que valoriza o potencial do aluno representa, na verdade, uma forma de privar os nossos alunos, as crianças que estão aprendendo a ler e a escrever do acesso ao conhecimento.

Não estou dizendo que as crianças não tenham que construir o conhecimento, nem que temos que abolir o construtivismo como preceito filosófico. O grande problema é que a criança não tem que construir a escrita, ela tem que construir o conhecimento acerca de como se escreve, esse é o erro da interpretação desse pseudo-construtivismo ao meu ver. A criança tem sim que construir o conhecimento, porque todo conhecimento é construído, no sentido de que é apropriado de modo particular pelo sujeito, o que não significa que ele inventa tudo, portanto é preciso ensinar!

O que tem que ficar claro é que não existem evidências, ou são poucas e questionáveis as evidências, que suportam essas ideias da psicogênese da língua escrita. No entanto, são inúmeras as pesquisas, brasileiras e estrangeiras, que refutam essas ideias, mas quase ninguém quer ver isso no Brasil, fingem que não existem críticas. Vários países, incluindo os EUA, já passaram por essa fase de acreditar em teorias que preconizam o ensino global de leitura primeiramente. E hoje todos eles já sabem que trata-se de um desperdício de tempo dos professores e dos alunos. Ninguém aprende física quântica sem saber as mais simples regras de matemática.

Agora eu proponho a seguinte questão: quem é que aprende a dirigir em plena marginal na hora do Rush? Não se aprende! Já está mais do que evidente que se deve ensinar das menores unidades, do que quer seja, para as maiores unidades. O que não significa que as crianças lerão ad eternum de modo silabado, isso é uma crença sem qualquer fundamento. Alguém aprende a correr antes de dar os primeiros tímidos e trôpegos passos? E algum adulto ainda engatinha? Vale lembrar também que se a linguagem escrita tivesse essa geração espontânea na mente de cada um (psicogênese) como explicar a existência de analfabetos em sociedades letradas como a nossa em que em todos os lugares há coisas escritas, essas pessoas têm alguma doença?

A Psicologia Cognitiva e o método fônico – que fornecem boas evidências de como se ensina a ler e a escrever com eficácia – não são métodos tradicionais, métodos arcaicos, cartilha, coisa do passado.  Essas coisas são o que tem demonstrando os melhores resultados de pesquisa e, portanto são os que fornecem melhor resultado e que deveriam ser utilizados. Quem tem mais de 30 anos certamente aprendeu com um desses métodos e por acaso não aprendeu? Se as evidências atuais indicam que essa é a forma que apresenta melhores resultados, porque usar um método que gera apenas rankings educacionais vergonhosos ano após ano em um país que acredita ser a 6ª economia mundial.

Não estou tentando defender uma nova religião para a Psicologia Cognitiva,  mas quero que os conhecimentos mais avançados sejam conhecidos e utilizados a favor da humanidade.  As contribuições de Ferreiro foram importantes há 30 anos atrás, porque naquela época sabíamos muito pouco sobre a aprendizagem da linguagem escrita, hoje as coisas são diferentes.

O que quero é que as práticas educacionais sejam baseadas e fundamentadas no conhecimento científico e não em posições ideológicas, religiosas e dogmáticas.  Sei que meu discurso parece tão utópico quanto às críticas que estou fazendo, já que isso não é totalmente possível, no entanto, é preciso tentar.  Como diria Lewis Carroll “A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível”. Se alguém me provar (cientificamente) que alfabetiza com o construtivismo e que obtém resultados tão satisfatórios quanto eu vejo com o método fônico, eu irei buscar mais estudos nesse sentido, do contrário não posso aceitar um ensino baseado na ficção do espontaneísmo, na geração espontânea e na aprendizagem por tentativa e erro.

Ensinar não é brincar de adivinhação, ensinar não é esperar que as crianças se desenvolvam sozinhas e que aprendam sozinhas, se fosse para ser assim não seria necessários professores! Essa brincadeira de adivinhação que se tornou o ensino de leitura e escrita, e de modo geral, a educação brasileira já passou dos limites. Está na hora da sociedade que tanto questiona diversas coisas de menor importância (como por exemplo, se houve ou não estupro no BBB), começar a refletir e questionar também o porquê de resultados tão insatisfatórios em diversos rankings e provas.

O papel da escola é, sobretudo, o de ensinar a ler, escrever e contar! Depois a escola pode também socializar, divertir, promover o que quiser, mas a primeiro e mais importante das funções é o ensino. E ensinar implicar em esforço, não é apenas brincando que se aprende, tem sim que refletir, pensar, o que não significa reinventar a roda. É um absurdo ver as crianças chorando para tentar adivinhar que letra é que tem que ser usada para escrever qualquer palavra. Eu queria entender qual o pecado capital que acontece se alguém revelar o enigma de que letras representam os sons da fala para as crianças. O mundo vai acabar se eu contar isso a uma criança? Ou vai facilitar a vida dos alunos e acabar com a brincadeira perversa de torturar crianças para criar alunos de EJA.

Enfim, espero que esse manifesto possa surtir pelo menos o efeito da reflexão para aqueles que leiam. Espero que as pessoas se interessem em procurar saber o porquê é que temos tantas queixas sobre a aprendizagem da leitura e escrita e da Educação Brasileira de modo mais amplo. A resposta já está citada no corpo desse manifesto, sem aprender a ler e a escrever como conseguir bom desempenho na escola? Espero que tentem verificar se existem pesquisas que demonstrem métodos mais eficazes de ensino e eu já adianto que sim, milhares de estudos em todas as línguas que quiserem.

Está na hora de acordar sociedade brasileira, os lobos preguiçosos se escondem sob a pele de cordeiro para iludir com os discursos de bom samaritanos, mas os filhos dos lobos estão nas escolas que ensinam. E se essas escolas não ensinarem os lobos se revoltam e exigem explicações. Pergunte aos lobos se eles querem que seus filhos fiquem descobrindo a roda outra vez. Então, vamos nos revoltar também porque as chamadas minorias populares são na verdade as maiorias – é só acordar!

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