Será que eu “sirvo” para seguir carreira acadêmica?

Você já considerou a possibilidade de ser professor/pesquisador? 

Por mais cansativa, desgastante e estressante que seja a atividade acadêmica, há um sentido nela que a torna apaixonante para aqueles que entram em contato com ela. Não vivo no país das maravilhas, já senti, sinto e sei que ainda sentirei na pele os ônus da carreira acadêmica. 

É importante falar sobre os problemas sim, mas sempre que um não-professor ouve alguém dizer que exerce a atividade docente, ou até mesmo os próprios professores, estão muito acostumados a associar a função com estresse, desgaste, sofrimento, baixos salários, etc. Uma das principais profissões associadas ao Burnout é a de professor. E a literatura sobre Burnout  sugere o resgate ao sentido da atividade exercida como uma das medidas que ajudam a superar a síndrome. 

Precisamos  encontrar sentido naquilo que fazemos, do contrário nossa saúde mental corre sério risco. 

Sabemos que a Psicologia tem uma quedinha pelo disfuncional, pela doença, etc. E não é só disso que somos feitos, não é mesmo? Que a vida de professor tem seu lado estressante e adoecedor, não podemos negar, mas ela também tem um lado enriquecedor (não no aspecto financeiro, você sabe) e realizador. E é disso que quero tratar neste texto.

Acho importante falar sobre as razões para seguir uma carreira acadêmica antes de fazer qualquer orientação sobre como trilhar esse caminho. Gostaria que, antes de mais nada, você entendesse um pouco mais o que é, afinal, uma carreira acadêmica e para que ela serve, assim sua decisão será muito mais consciente. Então vamos lá! 

O que é a carreira acadêmica?

De modo geral, alguém da área acadêmica exerce principalmente as atividades de professor e pesquisador. Mas existem diversas funções que podem ser exercidas no ambiente acadêmico, como coordenador de curso, editor de periódico, avaliador, diretor de faculdade e até reitor, só para citar algumas. 

Ou seja, alguém que opta pela carreira acadêmica escolhe trabalhar com ensino e pesquisa. Essas atividades caminham juntas, embora você possa se dedicar somente a uma delas. 

Com a abertura desenfreada de cursos superiores em diversas faculdades, a oferta de vagas para professores de Ensino Superior cresceu muito nos últimos anos aqui no Brasil, levando a uma diversidade no que se refere às exigências para a função, salários, etc.

Quando se fala em carreira acadêmica, existem dois extremos. Num deles temos o que  Gripp e Testi (2012) consideram a “elite”:  professores com pouca carga horária em sala de aula, trabalham em universidades de ponta em regime de dedicação exclusiva, têm contato com a nata da academia de universidades internacionais, têm fomento, etc. Estes são minoria, atuam principalmente em instituições públicas, embora existam algumas particulares que também gozam de certo prestígio. Nesse contexto,  tem-se acesso à produção científica de maior qualidade, bibliotecas e laboratórios de ponta, especialistas, e uma elevada produtividade acadêmica. 

No outro extremo, segundo os autores, estão os professores de faculdades do interior, com poucos recursos institucionais e acadêmicos, que exercem essencialmente a atividade de professor, atuando em sala de aula, com pouco ou nenhum envolvimento na área de pesquisa. Geralmente possuem outra atividade profissional ou assumem uma carga horária elevada de aulas. 

Existem N questões envolvidas nessa realidade e não entrarei nelas. O fato é que nas faculdades privadas existe maior possibilidade de exercer apenas a atividade de professor e não se envolver com a pesquisa, diferentemente das universidades, que têm a pesquisa e produção de conhecimento como principal atividade.

Se você gosta de dar aulas, mas não deseja fazer pesquisas, como disse, é possível ser professor numa faculdade particular e não ter que lidar com com produção científica, qualis, fator de impacto, etc. Possível é, mas acaba sendo algo limitador do meu ponto de vista. 

Está descontente com a Psicologia? Ajude a desenvolvê-la como ciência

Se você é do time que torce o nariz quando ouve falar em pesquisa científica, fica aqui minha sugestão. Muita gente reclama das limitações da Psicologia, das proibições do Conselho em relação a determinadas práticas, como a psicoterapia online, por exemplo. Mas o que fazem com a insatisfação que sentem? Geralmente resulta apenas em postagens no Facebook, práticas ilegais por rebeldia, etc.  

Com isso o profissional perde, porque fica sujeito à punição; o paciente perde, porque é submetido a uma prática sem eficácia comprovada; e a Psicologia perde, porque cada um faz o que bem entende nessa terra de ninguém. A ciência psicológica fica enfraquecida e desacreditada na sociedade. 

Quer entender os motivos de uma proibição de uma prática, se certificar de que ela realmente não funciona ou quer provar que ela funciona? Vá desenvolver pesquisas científicas! Se você obtiver resultados, será ouvido e o próprio Conselho poderá modificar sua postura. Agora, enquanto seus argumentos forem baseados em crenças ou convicções pessoais, sinto muito, você estará prestando um desserviço à sociedade, por mais bem intencionado que seja.

O ideal é que ensino e pesquisa caminhem juntos. 

Quando um professor limita-se a transmitir aquilo que aprendeu e não consome pesquisa, não frequenta congressos e não sabe o que está sendo produzido no âmbito científico, seu trabalho fica defasado. 

É por isso que o MEC exige uma porcentagem mínima de mestres e doutores no corpo docente das instituições, afinal essas titulações atestam (ou pelo menos deveriam atestar) que o professor é alguém atualizado e tecnicamente preparado para transmitir o que é próprio da produção científica: conhecimento. 

O conhecimento nos salva da ignorância. Todos somos muito mais ignorantes do que sábios. É impossível saber tudo e é uma ideia infantil pensar que professores ou cientistas sabem tudo. É preciso admitir nossa ignorância para superá-la. O que não seria possível se nos mantivéssemos numa postura dogmática e por que não arrogante de achar que nosso conhecimento é excelente o suficiente. 

Por conta dessa humildade intelectual, pelo reconhecimento de que o que sabemos é muito pouco e muitas vezes motivo de enganos e equívocos, é que os melhores professores e pesquisadores são aqueles que não se contentam com o já sabido. São pessoas incansáveis, que sempre querem mais, e isso nos leva a outra característica importante: a curiosidade. Sem curiosidade não se aprende, não se desenvolve conhecimento. É ela quem desperta o desejo pelo saber.

Paixão pelo conhecimento e curiosidade: essas duas características são essenciais para quem deseja respirar os ares acadêmicos. 

Muitas vezes, infelizmente, o verdadeiro sentido da carreira acadêmica se perde pelo caminho e ocorre uma inversão de valores. 

Muita gente vê na atividade docente uma forma de manter uma estabilidade financeira ou uma oportunidade de exercer uma função em que tenha poder sobre o outro. Mas dar aulas não deve ser um “segundo emprego”, um complemento de renda,  ou garantia de estabilidade financeira para contrabalançar a instabilidade da vida de psicólogo.

Dar aulas não é apenas transmitir conteúdo, ensinar o que se sabe. Não que esses elementos não estejam presentes. Eles estão, mas uma aula não se resume a isso.

Dar aulas é, sim, de certa forma, transmitir ao aluno aquilo que se sabe para que ele se aproprie verdadeiramente desse conhecimento, não que simplesmente reproduza o que leu nos livros e artigos ou ouviu do professor. Dar aulas é ensinar a pensar, transformar a forma de as pessoas verem o mundo, despertando nelas o desejo cada vez maior pelo aprendizado. 

Ter sucesso com um aluno de forma alguma é ver que ele aprendeu a reproduzir o que você ensinou. Muitas vezes, ao contrário, é ver que ele é capaz de contestar e argumentar de forma inteligente sobre o conteúdo ensinado. E essa construção se faz em sala de aula.

Na pesquisa também percebo os mesmos problemas relacionados a essa inversão de valores, a começar pela tão famosa bolsa! Falarei disso a seguir e depois comentarei alguns outros pontos que considero importantes na carreira acadêmica.

Bolsa

Vejo muita gente optando pela carreira acadêmica em função da bolsa. Diante da incerteza em relação ao futuro profissional, a ideia de ter uma renda fixa por dois anos atrai muita gente. Quando o mestrado se aproxima do fim, se a pessoa consegue manter a saúde mental, ingressar no doutorado imediatamente se torna bastante confortável, já que a estabilidade aumenta para 4 anos e o valor da bolsa é maior. 

Por medo, insegurança, o profissional acaba optando por seguir a sequência da formação acadêmica agarrando-se à bolsa. Não são todos, obviamente. Muitos optam por seguir este caminho como bolsistas muito conscientes dos ganhos e perdas. Outros optam por emendar o doutorado após o mestrado, mas sem o regime de dedicação exclusiva.

Cabe a cada um avaliar o que deseja para si, optando conscientemente por um caminho que faça sentido e atenda a seus desejos e necessidades, não baseado no medo. Vejo a bolsa como uma faca de dois gumes. O real intuito do mestrado e do doutorado não é a bolsa. Ela deveria suprir a necessidade básica dos alunos que se dedicam exclusivamente à produção do conhecimento, embora saibamos que isso não ocorre.

Salários

Passado o período inicial de formação e dependência financeira das agências de fomento, o passo seguinte é a contratação como professor. Assistente, horista, substituto, parcial, integral. Enfim, Professor ganha bem? Depende. Depende de vários fatores. Do nível de titulação, da região em que você mora, da instituição que o contrata. As grandes redes, principalmente aquelas que tratam o ensino como mercadoria (sim, infelizmente elas existem), costumam ter salários mais baixos. E, para compensar, o professor precisa ter uma carga horária maior, o que significa mais aulas para preparar, mais conteúdos para dar conta, mais alunos, mais provas e trabalhos para corrigir, etc. A conta nunca fecha. 

Relação com os alunos

A relação com os alunos é outro elemento importante quando falamos em carreira acadêmica. Afinal, não existe professor sem aluno, nem orientador sem orientando. O professor/orientador é uma autoridade e deve saber exercê-la de forma competente, não autoritária, nem descompromissada. É preciso ter paciência, respeito e compreensão com o estilo de cada um, mas também é preciso ser firme e saber exigir o melhor deles. Alunos são muito amorosos quando gostam de um professor, mas também sabem ser muito cruéis quando não gostam. 

Mas o objetivo do professor não deve ser conquistar o afeto do aluno, até porque sabemos que isso pode ser conquistado de forma legítima, isto é, sendo um professor competente, ou ilegítima, sendo aquele professor bonzinho que agrada os alunos o tempo todo e não cumpre sua função como deveria. Tenha consciência que parte dos alunos gostará muito de você e outros nem tanto, e tudo bem, é assim mesmo. Como psicólogos temos certa vantagem: somos empáticos e compreendemos que a agressividade e as críticas de uma pessoa dizem muito mais sobre ela do que sobre o alvo da agressão. Portanto, nada de levar para o lado pessoal, senão você perde o aluno. 

Reconhecimento

Como professores, somos cobrados constantemente, algumas vezes de forma justa, outras injustamente. É por isso que muita gente tem pavor de ficar diante de uma plateia ou de uma sala de aula; estar nesse lugar é ter toda atenção voltada para si (na verdade esse é o sonho de todo professor, mas é difícil competir com os celulares). Estar diante de uma turma é tornar-se um alvo, é saber que aqueles olhares estarão avaliando você o tempo todo, tanto positiva quanto negativamente. 

Não é preciso muito para ouvir reclamações, mas quando você faz um bom trabalho ou ao menos se esforça para isso, os alunos reconhecem e alguns até lhe dizem isso abertamente, de forma pessoal, ou na avaliação institucional. Dizem o quanto sua aula foi boa ou interessante naquele dia, ou enviam e-mails ou lembranças ao final do semestre letivo para agradecer sua dedicação e por ter compartilhado um pouco do que sabe com eles. É muito gratificante deparar-se com essas expressões ou ouvir de um aluno que ele decidiu seguir determinado caminho (seja uma abordagem, uma área de atuação, etc) por influência sua. Acredite, não tem preço!

Desenvolvimento do outro

Além do reconhecimento explícito que citei agora há pouco, existe um outro indício muito forte de que nosso trabalho tem um sentido especial e tem resultados concretos. É gratificante demais ver aquele aluno que no início duvidava de si mesmo, de sua capacidade para apreender um conceito ou executar uma tarefa, superar suas limitações ao final do semestre letivo. 

Somos fonte de inspiração para muita gente que às vezes nem expressa, mas nosso poder de influência na vida dos alunos é muito alto e precisamos ficar atentos a isso, pois da mesma forma que a influência pode ser positiva, também pode ser negativa. Se queremos formar pessoas e profissionais éticos e competentes, precisamos ser exemplos disso.

Referência

Gripp, Glícia S., & Testi, Bruno Moreti. (2012). Trajetórias acadêmicas: um estudo comparado da carreira acadêmica em Minas Gerais. Sociedade e Estado27(1), 47-61. https://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922012000100004

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